A mapa do futebol
* Marcel Capretz
O mapa do futebol brasileiro está mudando. O modelo que se consolidou a partir da década de 1960, quando se estabeleceu a ideia dos chamados “12 grandes clubes do Brasil”, já não explica sozinho a realidade do futebol atual.
Foi nos anos 60, por exemplo, que o Santos de Pelé passou a integrar esse grupo ao lado do trio de ferro da capital paulista. Em Minas Gerais, o Cruzeiro desbancou o América-MG e se consolidou como o grande rival do Atlético-MG. Naquele período, fatores como títulos, tradição, torcida e representatividade nacional ajudaram a definir quem ocuparia o espaço reservado aos grandes clubes.
GESTÃO MUDA O JOGO
Quase 70 anos depois, porém, o futebol mudou profundamente. Globalização, SAFs, modelos de gestão profissional, grupos multiclubes e novas formas de investimento criaram variáveis que hoje podem pesar muito mais no resultado esportivo do que simplesmente o “peso” da camisa, o histórico de títulos ou até mesmo o número de torcedores.
O tamanho histórico de um clube continua tendo importância, mas deixou de ser garantia de competitividade. A estrutura administrativa, a capacidade de geração de receitas, o planejamento e o modelo de gestão passaram a interferir diretamente na capacidade de uma equipe permanecer entre as principais forças do país.
BAHIA E BRAGANTINO
Dois exemplos concretos dessa transformação são Bahia e Bragantino. Os dois clubes, cada um dentro de seu modelo de gestão, conseguiram se consolidar na primeira divisão e passaram a disputar com frequência posições que dão acesso a competições internacionais.
Esse movimento mostra que clubes fora do antigo núcleo de gigantes podem ganhar espaço quando encontram modelos capazes de transformar organização e investimento em desempenho dentro de campo.
VASCO E O PESO DA HISTÓRIA
Na outra ponta está o Vasco da Gama. Trata-se de um clube de torcida enorme, tradicional e extremamente apaixonada, com peso histórico inegável no futebol brasileiro. Mesmo assim, o clube passou a conviver praticamente todos os anos com a necessidade de lutar contra o rebaixamento para a segunda divisão.
É justamente esse contraste que ajuda a mostrar como o futebol brasileiro mudou. Ter uma torcida gigantesca e uma história recheada de conquistas continua sendo um patrimônio importante, mas não é suficiente para garantir competitividade.
O CASO DO SUL
Se olharmos para Grêmio e Internacional, a discussão fica ainda mais complexa. Não é por acaso que o último grande título de um dos dois clubes tenha sido a Libertadores de 2017, conquistada pelo Grêmio. Já se passaram quase dez anos.
Além das dificuldades para competir financeiramente com os grandes clubes da região Sudeste, os dois clubes gaúchos também enfrentam uma questão geográfica. Eles não possuem torcidas de alcance nacional comparável às maiores marcas do futebol brasileiro e estão localizados no extremo sul de um país continental.
A logística também pesa. Viagens mais longas, deslocamentos constantes e menor tempo de descanso podem representar uma diferença pequena em cada rodada, mas significativa ao longo de uma competição de pontos corridos. Pode ser justamente aquele ponto que falta para conquistar um campeonato ou até mesmo para evitar um rebaixamento.
UM NOVO MAPA
Entender que o futebol está inserido dentro da sociedade e que essa sociedade vem mudando rapidamente exige também humildade para reconhecer que o futuro ainda não está totalmente definido.
O que já parece claro, porém, é que o mapa do futebol brasileiro desenhado nos anos 60 não cabe mais perfeitamente na realidade atual. Os chamados 12 grandes continuam tendo história, torcida e importância, mas novas forças surgiram, enquanto alguns dos clubes tradicionais perderam espaço.
O futebol brasileiro está entrando em uma fase em que tradição e torcida continuam contando, mas gestão, dinheiro, estrutura, logística e capacidade de adaptação passaram a ter um peso cada vez maior. E esse novo equilíbrio ainda está sendo desenhado.
* Marcel Capretz - é jornalista e pós-graduado em Comunicação, atuando profissionalmente na mídia desde 2004. Com mais de dez cursos realizados na Universidade do Futebol, é poliglota e possui formação em PNL (Programação Neurolinguística) e Coaching. Além da trajetória consolidada em rádio, TV e plataformas digitais.