Azulão, 2027
O que esperar da próxima temporada? Azulão
terá um grande e difícil desafio: uma competitiva Série A3
@esportivo.regional - 03/10/2026
Imagem: IA / Fotos: Neto Bonvino
* Rivail Oliveira
O Esporte Clube São Bento encerrou o ano de 2026 não deixando seu torcedor com saudades... Foi uma temporada marcada por resultados que não agradaram à grande massa de torcedores do centenário Azulão de Sorocaba.
E que resultaram no rebaixamento para a Série A3 estadual, depois de uma campanha muito aquém do que seu fervoroso torcedor esperava.
É claro que o São Bento é um clube que, desde sua fundação, em 1913, sempre enfrentou problemas de ordem financeira. Mas também viveu momentos importantes em sua história, como o acesso de 1963, com o esquadrão comandado por Paraná, Bazaninho, Mickey e outros jogadores que marcaram época na história. Teve jogadores na Seleção com o Luís Pereira, Marinho Perez, Paraná etc.
Também o clube e Sorocaba se orgulham em sua história as equipes notáveis, como a campeãs da Taça do Estado de São Paulo e os grandes times que disputaram o Paulistão durante várias décadas, fazendo frente aos grandes esquadrões do futebol paulista desde a década de 60 e 70
Como o Santos de Pelé, Pepe, Gylmar, Carlos Alberto, o São Paulo da década de 70 de Pedro Rocha, Serginho, Valdir Peres, entre outros; a máquina Verde da década de 70 com Leivinha, Ademir da Guia, Dudu etc, e o Corinthians de Rivelino, Sócrates, levando orgulho a Sorocaba e toda a região.
E mais recentemente, entre 2013 e quase 2018, o clube viveu outro período de destaque. O São Bento saiu da terceira divisão estadual, conquistou espaço no futebol paulista e chegou à Série B do Campeonato Brasileiro, dando a impressão de que, finalmente, poderia alcançar voos mais altos no país
DECLÍNIO E PERDA DE ESPAÇO
Depois daquele período, porém, o São Bento entrou em declínio e foi perdendo divisão por divisão, caindo vertiginosamente até chegar ao atual estágio, sem divisão, e culminando com o rebaixamento para a Série A3.
E aqui não se trata de fazer "caça ás bruxas", apontando diretoria A ou B. O que pode ter levado o clube à situação critica atual foi, na verdade, um conjunto de situações.
Entre elas, está também o aspecto financeiro, uma questão que historicamente acompanha o São Bento e que nunca permitiu ao clube viver uma situação econômica confortável por longos períodos.
O momento, portanto, exige que o clube defina claramente o que pretende para o futuro.
QUAL MODELO DE GESTÃO?
O São Bento precisa decidir qual tipo de gestão pretende adotar. Será uma administração convencional? Uma gestão intermediária? Ou o caminho será a transformação em Sociedade Anônima do Futebol, a SAF?
Essa definição é um dos pontos cruciais para o futuro do clube.
A atual diretoria, assim como outras que passaram pelo São Bento nos últimos tempos, tem boa vontade e demonstraram amor pelo clube e fizeram o que puderam. Mas, no futebol atual, isso não é suficiente.
O esporte bretão atual se tornou essencialmente profissional, caro e extremamente exigente. A paixão continua sendo fundamental, mas é preciso acrescentar organização, planejamento, estrutura e capacidade de gestão dentro e fora de campo.
E isso vem sendo evidenciado no futebol brasileiro, com os bons exemplos de gestão de Flamengo e Palmeiras, que não sem motivo vem dominando já há algum tempo o pais e até o continente. Com os outros times ficando atrás e todos sentidos.
TEMPOS MUDARAM
Temos acompanhado praticamente todas as divisões do futebol paulista, da Bezinha à primeira divisão, além dos campeonatos brasileiros. Também conversamos com dirigentes e amigos jornalistas de vários estados e de diferentes regiões do Estado de São Paulo.
E uma constatação aparece de maneira cada vez mais clara: não existe mais espaço para o que muitos chamam de "jeitinho", num futebol competitivo.
Para se ter uma ideia, neste ano acompanhamos, por meio do site de nível nacional que somos setoristas (Futebol Interior), o Campeonato Paulista da quinta divisão (Bezinha), dois últimos anos. Estamos falando de quinta divisão! Dos pouco mais de 20 times participantes, entre 15 e 16 eram SAFs ou tinham algum tipo de gestão empresarial. Clubes muito bem estruturados, gerenciados dentro e fora de campo.
Quanto mais se sobe na estrutura, maior é a competitividade e, consequentemente, maior é a necessidade de profissionalização. É o caso da Série A3, que o São Bento disputará no próximo ano, da Série A2 e, principalmente, do Paulistão. Então, não se espere em 2027 uma terceirona com facilidades. E o clube de Sorocaba precisa estar atento e se estruturar muito bem, para não ser surpreendido.
PAIXÃO CONTINUA, MAS FORA DAS QUATRO LINHAS
Evidentemente, ainda há espaço para a paixão pelo futebol. Ela sempre existirá e continuará sendo uma das grandes forças dos clubes e vai mover milhares de torcedores.
Mas, cada vez mais, essa paixão precisa estar do lado de fora das arquibancadas. Dentro das quatro linhas, o futebol atual tem mostrado que times e clubes que não conseguem se ajustar aos novos tempos tendem a enfrentar enormes dificuldades, inclusive para sua própria sobrevivência.
Não se trata de abandonar a história, a tradição ou a identidade de um clube. Mas de encontrar uma maneira de preservar tudo isso dentro de uma realidade esportiva e financeira completamente diferente daquela de décadas atrás. E buscar recursos, com trabalhos eficientes dentro e fora de campo.
UMA REGIÃO COM GRANDE POTENCIAL
Nossa expectativa não é apenas em relação ao São Bento, mas também aos clubes de toda a região.
Sorocaba e as cidades próximas têm pelo menos nove ou dez equipes com bom potencial. Não vamos citar todas neste momento, mas é importante destacar que existe um patrimônio esportivo regional que pode e precisa evoluir.
E essa evolução não deve acontecer apenas dentro de campo. Principalmente fora dele. Temos um Ituano bem estruturado hoje, um Desportivo Brasil também em Porto Feliz, clubes que tem todo potencial para crescer como o Real Soccer, Votoraty, Atlético Paulista da cidade de Salto de Pirapora.
Sem citar o EC Itapetininga (time da terra de onde nascemos), de uma cidade onde tivemos o inesquecível Derac um dia. Poderiamos citar ainda o futebol de Salto que faz um bom trabalho, CT Vital Ibiúna que também joga das divisões de base da FPF. Como podem ver temos uma região que tem tudo para crescer e evoluir no futebol. E é isso que esperamos e que os torcedores anseiam.
O futebol atual é tão exigente e profissional que a organização administrativa, o planejamento, a estrutura e a capacidade de gestão passaram a ser tão importantes quanto a montagem de um bom time.
UM NOVO CAMINHO PARA O SÃO BENTO
O São Bento precisa, finalmente, encontrar seu rumo.
A história do clube mostra que Sorocaba já teve equipes capazes de enfrentar grandes adversários, disputar o Paulistão, conquistar acessos e representar a cidade em competições nacionais. O desafio agora é construir as condições para que isso volte a acontecer.
Que o São Bento encontre seu caminho para recolocar Sorocaba e o futebol sorocabano no lugar que já ocuparam no cenário estadual e nacional — um lugar de onde nunca deveriam ter saído.
* Rivail Oliveira - Jornalista, radialista e cronista esportivo, com mais de 30 anos de atuação na imprensa. Atuou em jornais, rádios e emissoras de televisão de Sorocaba e região, além da imprensa esportiva do Nordeste. Na imprensa escrita, teve passagens pelo Diário de Sorocaba, Folha de Votorantim, Bom Dia Sorocaba, Portais, Jornal Olé, Porque, Gazeta de Votorantim. No rádio, atuou no setor esportivo das rádios Clube de Sorocaba (Equipe 1080), Manchester Sorocaba e Super FM Sorocaba, além das rádios Clube e Difusora de Itapetininga, entre outros veículos. Setorista do Portal Futebol Interior, de Campinas e editor do Portal Esportivo Regional.
